Sensibilidade: o quanto isso pode fazer a diferença na natação

Há alguns anos, eu tinha um nadador muito talentoso e com uma potente pernada submersa. O cara era muito bom!
Quando ele saía da borda, entrava aquela pernada forte, muito forte, e abria muito em relação aos adversários – tanto nos treinamentos e, principalmente, nas competições. Porém, quando acontecia a fase de transição – a saída da parte submersa para o início de nado –, surpresa: toda aquela vantagem era perdida.
Confesso que demorei para entender, mas a verdade era que nada adiantava ter o “melhor submerso do mundo” se você não conseguiria fazer a transição para o início de nado. Ou seja: na sequência do grande e poderoso submerso, vai precisar acontecer a fase de passagem para o início de nado. O americano chama isso de “breakout”.
O tal do “breakout” é uma ação tão importante quando a fase propulsiva, mas tem um componente de sensibilidade incrível. É o nadador que vai ter de fazer a leitura e identificar quando é o momento exato de sair do submerso, mudar a direção do movimento e romper à superfície.
Pois o meu nadador não tinha tal sensibilidade e, pior que isso, estávamos jogando muita energia fora com a pernada impressionante na fase submersa e que não se transformava em vantagem no início de nado.
Treinos, dicas, broncas… nada surtia efeito até escutar a um dos melhores treinadores de natação do Brasil. Mirco Cevales é daqueles treinadores que consegue, com pequenas observações, encontrar grandes soluções. Pois o Mirco, que foi treinador de Thiago Pereira em boa fase na época do Minas Tênis Clube, me deu a dica: “Mande ele fechar os olhos!”.
Mirco viu o talento e a qualidade do meu nadador, e viu a dificuldade em fazer a tal fase de transição. Simplesmente mandou a dica que incrementava a sensibilidade. Ao fechar os olhos, o nadador teria de buscar em seus outros sentidos este momento exato para a fase adequada.
Cientificamente, chamamos isso de Propriocepção, ou cinestesia, termo que resume a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais – tudo isso, sem utilizar a visão.
Nosso esporte é maravilhoso e combina muitos destes valores, físicos, estratégicos, e a sensibilidade motora não pode deixar de ser citada nestas valências. Aliás, alguns dos nadadores mais talentosos e com melhores resultados de alta performance têm, entre suas qualidades, sempre uma boa sensibilidade.
A sensibilidade se trabalha desde a base, seja com educativos, trabalhos específicos e até mesmo pequenas orientações como esta, que ajudou meu nadador.
A dica do Mirco foi perfeita. Meu nadador incorporou o desafio, encontrou o momento certo e sua pernada lhe valeu grandes resultados. Ele chegou até a ser nadador olímpico, mas isso é assunto para um próximo texto.

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